Jocy de Oliveira

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Pioneira no desenvolvimento de um trabalho multimídia no Brasil, envolvendo música, teatro, instalações, textos e vídeo. É a primeira entre os compositores nacionais a compor e dirigir suas óperas. Seu trabalho segue em direção à reformulação do sentido tradicional da ópera. Compôs, roteirizou e dirigiu suas 8 óperas, apresentadas em diferentes países.

Recebeu vários prêmios como: Guggenheim Foundation, Rockfeller Foundation (1983 e 2007), Bogliasco Foundation, CAPS, do New York Council on the Arts, Fundação Vitae, RioArte, sendo  também membro da Academia Brasileira de Música.  

Suas obras tem sido apresentadas em teatros e festivais tais quais : Berliner Festspiele, Haus der Kulturen der Welt , Hebbel Theater em Berlim, StaadtsTheater Darmstadt, Festivals Dresdner Tage der Zeitgenössischen Musik, Desden, Expo 2000 Hannover, Ludwigshafen Opera Festival, Salzburg Festival – Aspekte, Hayden Planetarium, Carnegie Hall, Brooklyn Academy - em New York, New Music America Festivals, Miami Planetarium, Bellas Artes - Mexico, Teatro Avenida, Buenos Aires, Chengdu - China, Radio France - Paris, Bayrischer Rundfunk, Munique Gaudeamus e Gulbenkian Foundations, Biennials of Contemporary Music, Rio de Janeiro, Theatro Municipal de São Paulo e do Rio de Janeiro, entre outros inúmeros festivais e radios em diferentes países.

Em 2007 o Festival Internacional de Campos do Jordão-SP, homenageou seu obra programando várias de suas peças (ópera, concerto de câmera, peça para soprano e orquestra de cordas). Em 2008, lançou um Box com 4 DVDs compilando suas 6 óperas, com distribuição internacional pela NAXOS Video Library. No mesmo ano, o Instituto Oi Futuro (RJ) promoveu uma retroprospectiva de seu trabalho em forma de instalação, exposições, concertos e ópera, durante dois meses e foi visitada por cerca de 20 mil pessoas. Em 2010, seu espetáculo de música-teatro “Revisitando Stravinsky” estreou no SESC São Paulo e no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 2011“Revisitando Stravinsky” foi lançado em DVD com distribuição internacional pela NAXOS Video Library. Em 2012 seu espetáculo de música- teatro “Berio sem censura” estreou no SESC, São Paulo e Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Um DVD está sendo editado para lançamento em 2013. Ainda em 2012, a Radio France, Paris,  apresentou um perfil de sua  trajetória e obra em dois programas exclusivos de uma hora cada irradiados em horário nobre. Sua nova ópera multimídia “Liquid Voices” em progresso, deverá estrear em Basel, Suíça, Abril de 2015.

Foi solista sob a regência de Stravinsky e apresentou várias primeiras audições de compositores que a ela dedicaram obras, como: Xenakis, Berio, Santoro, Cage.

Como pianista e compositora gravou 22 discos no Brasil, Inglaterra, EUA, Alemanha e no México; gravou nos EUA e no Brasil a obra pianística de Olivier Messiaen (selo NAXOS).
Autora de 4 livros publicados no Brasil e nos USA, seu quinto livro –“Diálogo com cartas” está programado para lançamento  no Brasil pela SESI –SP Editora em Maio de  2014  e posteriormente  na França pela editora Honoré Champion.

A entrevista a seguir foi realizada através de uma troca de e-mails entre Jocy de Oliveira e Ricardo Dal Farra de janeiro a março 2014.

La siguiente entrevista fue realizada mediante un intercambio de correos electrónicos entre Jocy de Oliveira y Ricardo Dal Farra entre enero y marzo de 2014.

Idioma original: 
Portugués
Fecha de Publicación: 
31/03/2014
Jocy ¿podés contarnos sobre tus años como pianista?

Sempre digo que ouvi música antes de nascer, e foi provavelmente o  som do piano pois minha mãe era pianista  embora não tenha feito carreira.

Quando criança, talvez com 3 anos de idade  já tocava piano  de ouvido e me apresentava em pequenas audições. Aos 7 anos toquei no Theatro Municipal de S. Paulo. Daí em diante, o piano havia me escolhido e eu não parei para pensar. Segui o caminho que ele me indicou.

Alguns eventos foram cruciais para a minha trajetória como pianista : cito principalmente minha mestra Marguerite Long, meu encontro com Stravinsky e a vivência de sua obra,  a revelação da  música de  Luciano Berio , por ultimo foram os anos e anos dedicados ao estudo e execução da obra pianística de Messiaen.

Em fins da década de 1980, eventos pessoais traumáticos me fizeram refletir sobre a vida de um intérprete, principalmente voltado para execução da música do seu tempo. Isto significava ser um laboratório vivo. Constante pesquisa e  estudo de novas obras. Horas e horas de estudo, viagens e apresentações e decidi interromper minha  trajetória como pianista..

O piano era um exercício de meditação e disciplina que hoje reconheço ter sido importante para meu equilíbrio e paz interior. O processo de criação é uma árdua e ansiosa estrada totalmente diversa, que nos traz momentos de êxtase e de ansiedade, bem distantes daquela paz alienada na disciplina diária do estudo de um instrumento.

Em 2009-2010, quase vinte anos depois, resolvo retomar o piano para participar de minha nova peça de música-teatro: Revisitando Stravinsky. O contar de minha extraordinária vivência da pessoa e obra de Stravinsky fez  com que fosse imperativo meu depoimento em cena, assim como utilizar do veículo que me levou ao mestre – o piano.

É uma experiência única para um pianista sentir a reorganização de seus dedos sob o comando de um cérebro que não aceita as dificuldades técnicas encontradas. Pouco a pouco, durante meses seguidos de escalas, terças e sextas... os dedos começaram a responder. O limite de tempo e de condição digital deve ser observado com cuidado, mas o prazer de poder ser parte de um grupo de câmera, de voltar à paz meditativa do estudo foi imenso.

Após as cinco bem-sucedidas apresentações, passei a editar o vídeo documental e de novo sofro um acidente, fraturando minha mão direita. Isso me leva de volta à total impossibilidade de tocar por meses.

Foi uma dádiva curta e prazerosa que, posteriormente, me custou uma longa e profunda dor. Mas, em 2012, já retomava o piano para acompanhar meu depoimento em cena na minha ópera multimídia  Berio sem censura. Foi a vez de acordar a memória de meus dedos para a Sequenza IV, de Luciano Berio. Obra que ele escreveu dedicada à mim. Essas duas óperas multimídias sobre Stravinsky e Berio me levaram a vivenciar caminhos escondidos da memória ao encontro de momentos reveladores.

Qué te llevo a pasar del piano a pensar y crear óperas multimedia?

Creio que passamos nossas vidas a fazer e refazer as mesmas coisas apenas a linguagem , a forma se alteram. Música, teatro e imagem sempre fizeram parte de minha vida. Tudo coexiste e nasce simultaneamente. Foi como tudo para mim, um processo espontâneo e intuitivo. Sempre existiu.

Tenho trabalhado com a visão atemporal dos mitos nas sociedades matriarcais da Antiguidade, como a “prostituta sagrada”, nos contos de fadas, a “Diva” como personagem fadada à morte ou a vítima nas óperas convencionais, o mito da Medea transportado para a contemporaneidade como mulher transgressora, discriminada, heroica, e todos aqueles mitos ligados à figura da mulher e seus valores que se seguem nos fragmentos de meus textos para seis óperas. Em todas as minhas peças de música-teatro, ou ópera, o texto sempre é criado concomitantemente com a música e imagem cênica. Não acredito em escrever um libreto para uma ópera ou musicar um texto. A utilização de vários idiomas para o texto cantado tem em vista a questão sônica/musical. Essas óperas tem sido apresentadas tanto no Brasil como na Europa e estão gravadas em DVD distribuidas pelo selo Naxos Music Library.

Antes dessas óperas multimidia busquei por espaços multidimensionais e porque não multisensoriais como Planetários para os quais conpus uma série de peças planetárias As teorias de Stephen Hawking inspiraram muito em particular essa minha série de peças planetárias: Música no espaço e Solaris.

En 1961 organizaste en Rio y São Paulo la primera semana de música nueva Cómo surgió esa idea? Porqué pensaste en hacerla? Cuál era el contexto en Brasil en ese momento?

Exatamente, o contexto no Brasil naquele momento pedia pela inovação, eram anos de inquietação, curiosidade, um campo fértil pois aqui nada existia nesse sentido. Nenhum dos  compositores pioneiros europeus ou Americanos  que programamos eram tocados ou conhecidos no Brasil.

Eu, como morava parte no Brasil e parte no exterior, tinha contato com esses compositores principalmente como pianista e amiga.

Fué un evento pionero para la música electrónica en Brasil ¿qué podés contarnos de los conciertos, la música, los invitados, la gente?

Quando organizamos a pioneira 1ª Semana de Música de Vanguarda, em 1961, o público brasileiro ouviu música eletrônica pela primeira vez, e a obra de Stockhausen – entre outras peças, Gesang der Jünglinge, sua memorável peça eletrônica. Para essa  Bienal ou Semana de Música de Vanguarda, trouxemos ao Brasil, pela primeira vez, Berio, Pousseur, David Tudor, além de apresentar primeiras audições, algumas mundiais e outras no Brasil, de Stockhausen,Koellreutter, Cage, Pousseur, Berio, Earle Brown, Sylvano Bussotti e Gottfried M. Koenig e  o Brasil ouviu pela primeira vez concertos com a obra desses compositores.

O ponto alto foi a estreia de Apague meu spot light,   http://www.youtube.com/watch?v=E3ef7EvyoBY&feature=share&list=UUYLel28C47ff4ZTRnbdqMjw&index=1 peça de teatro- música , uma parceria entre o compositor Luciano Berio e eu. A peça inaugurou a Bienal, sendo realizada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e no Theatro Municipal de S. Paulo , durante a Bienal de Arte de S. Paulo. Quando conheci Luciano Berio em Tanglewood , 1960 estava escrevendo essa peça de teatro que imaginava  como um drama eletrônico.

Desenvolvi com Luciano Berio essa parceria e ele compôs para esse roteiro,  a música eletrônica com minha assistência. A peça foi levada  a cena pelo Teatro dos Sete (composto de atores como Fernanda Montenegro, Sergio Britto, Italo Rossi entre outros)

O longo procedimento para a construção dessa peça funcionou mais ou menos assim: eu dirigia a gravação das vozes dos atores na Rádio MEC. Essas fitas eram enviadas para Milão por meio da embaixada italiana ou do Itamaraty para serem processadas. Berio nos enviava de volta para serem editadas e adaptadas às nossas necessidades. Devolvíamos, e, no final, ele veio ao Rio trazendo as fitas para mixagem final. Isso durou cerca de três meses, durante os ensaios diários no Teatro Ginástico Português, além de minha ida a Milão para finalizações.

¿De qué hablan tus óperas? ¿Cuál es la historia -o las historias- que te interesa contar?

Não contam histórias, sugerem, estimulam o imaginário, o sonho. Mesmo assim tenho abordado  temas recorrentes como tempo, espaço, meio ambiente e a mulher – valores do feminino.

¿Cuándo comenzaste a trabajar con electrónica en vivo? ¿Podés hablarnos de tus primeras experiencias en é campo?

Em fins da década de 1960, ainda engatinhávamos nas vias analógicas. Principalmente me interessava processar o som em tempo real, por exemplo  a série de Estórias (para instrumentos acústicos e eletrônicos). Alem disto, cito também a série  de Probabilistic Theaters, e Polinterações, já peças multimídia. Foram apresentadas e editadas no Source – Music of the Avant Garde, Califórnia.

Tus "eventos planetarios", ya a comienzos de los años 80, reúnen música electroacústica, voces e instrumentos acústicos, holografía, proyecciones, láser y más. Son encuentros entre la poesía, la astronomía, la música, el medio ambiente. Eventos multisensoriales y multidisciplnarios realizados durante un período pionero ¿Cómo surgen estos proyectos? ¿Cuáles eran tus ideas y las motivaciones que te llevaron a hacer estas obras en aquellos momentos?

A  instigante questão  do tempo / espaço, as teorias  de Stephen Hawking, o fascínio pelo espaço. 
Absorver o tempo em sua essência não estruturada torna-se uma das questões primordiais na minha música.
O Planetário nos oferece uma sensação de movimento, vibrações do universo, como se as frequências viajassem pelo espaço, sugerindo uma maior integração do homem e o cosmo. Um planetário é como um templo. O templo do infinito, onde um evento sensorial e multidimensional reporta a um espaço onírico de reflexão e tranquilidade expandindo nossa percepção.

¿Pensás que la música puede ayudar a cambiar la percepción del mundo? ¿Que puede ser un elemento que nos ayude a pasar de la contemplación a la acción?
¿Cuál es, para vos, el rol del artista en la sociedad actual?

Música por sua qualidade efêmera tomou um curso nos nossos dias como arte menor em relação as artes visuais que se estabelecem como duradouras. Enquanto um artista visual pode nortear sua criação no caminho do conceito, da reflexão e renegar a condição utilitária de decoração, entretenimento, a música, hoje,  é facilmente identificada como entretenimento. Porém a música criação, invenção (como se referia Stravinsky) é reflexão e para mim, de jeito nenhum – entretenimento.

Minhas afinidades são com aqueles que tanbém pensam assim. 
Creio que o mundo tem ação demais. Busco mais  um momento de reflexão, induzir o ouvinte a um mergulho no seu próprio inconsciente.

Esta é uma questão difícil...nosso papel na sociedade atual. Transformar o mundo? Creio que apenas questionar, tentar ser ouvido por  aqueles poucos que ainda ouvem...

¿Qué influencia ha tenido la visión científica de la vida y el universo en tu proceso creativo?

Em 1915, Einstein explica, por meio de sua Teoria da Relatividade Geral, as influências gravitacionais quanto à curvatura do espaço-tempo. Hoje, sabemos, através da geração seguinte de físicos relativistas, que a questão espaço-tempo é bem mais complexa, e a percepção muda de acordo com o referencial. Seguramente , a  transformação da visão científica no século XX com as teorias da relatividade, quântica e do caos influenciaram a criação artística contemporânea e por conseguinte  para nós compositores, a nossa maneira de pensar e lidar com  a música.

Tu carrera artística es impactante y tu trabajo se ha presentado en muchos países ¿Qué te gustaría hacer ahora, que no hayas hecho aún?

Em primeiro lugar devo  lançar em 2014 no Brasil  um novo  livro “Diálogo com cartas” pela Editora  Mauad X   O livro   traduzido para o francês terá também uma edição na França pela Honoré Champion.

A ideia desse livro foi amadurecendo durante alguns anos. ˙Há cinco anos tive um prêmio bolsa da Rockefeller   Foundation  para um período em residência nesta Fundação em Bellagio Itália. Levei para lá xerox de duzentas cartas escritas para mim por alguns dos maiores compositores  da segunda metade do século XX. Foram personagens com quem convivi e trabalhei. Uma extraordinária oportunidade  naquela época, para uma jovem  da minha idade.

Iniciei então um processo de seleção, análise, anotando comentários, observações e acrescentando informações relevantes e pertinentes `as circunstâncias  que as motivaram. Pouco a pouco o livro foi tomando forma e escolhi abordar 10  entre os mais proeminentes   artistas  daquele período tais como: Stravinsky, Messiaen, Luciano Berio, John Cage, Robert Craft, I Xenakis, Stockhausen, Claudio Santoro, Eleazar de Carvalho e Lukas Foss. O livro portanto  aborda um material inédito  e baseado em fonte primária. 

Estou  também compondo uma nova ópera multimídia encomendada por um Organização  em Basel na Suíça  para o início do ano de 2015. Estou terminando a edição  do DVD de minha ópera multimídia-  "Berio sem censura" , gravada durante sua estreia mundial no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 2012 para ser lançado até o fim do ano.

Que gostaria de fazer agora que ainda não tenha feito?

Recomeçar. Estamos sempre recomeçando e tentando caminhos desconhecidos.