Andréia Machado Oliveira

BioFoto

Doutorado em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS - Brasil e pela Université de Montreal/UdM - Canadá, Mestre em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS e Graduada em Bacharelado e Licenciatura em Artes Visuais pela UFRGS. Atualmente é membro dos grupos de pesquisa: NESTA (Núcleo de Estudos em Subjetivação, Tecnologia e Arte) - UFRGS; Corpo, Arte e Clínica - UFRGS; SenseLab research-creation group - Concordia University, Canadá; Arte e Tecnologia - UFSM; e coordenadora do grupo de pesquisa e criação InterArTec e do LabInter (Laboratório Interdisciplinar Interativo) - UFSM. Artista Multimídia com experiência nas áreas de arte e tecnologia, subjetivação contemporânea, sistemas interativos e EaD; bem como produção de projetos culturais e educacionais. Professora Adjunta I do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais no Centro de Artes e Letras; professora pesquisadora I da Universidade Aberta do Brasil e Coordenadora do curso de Especialização de TIC aplicadas à Educação da Universidade Federal de Santa Maria/NTE/UAB/UFSM-Brasil. Delegada Setorial de Arte Digital no Ministério da Cultura e membro da Associação Nacional dos Pesquisadores de Artes Plásticas/ANPAP.

A entrevista a seguir foi realizada através de uma troca de e-mails entre Andreia Machado Oliveira e Ricardo Dal Farra durante os meses de março e abril de 2012.

Idioma original: 
Portugués
Fecha de Publicación: 
03/05/2012
Para começar, algo simples: Quem é, o que faz e por quê?

Bom, essas perguntas simples sempre me assustam, é como uma tela em branco. Sou um corpo em movimento que existe na presença de outros corpos, buscando intensidades nesse viver (de um certo modo spinoziano). Na verdade a pergunta quem sou se confunde muito com a pergunta o que faço: sou artista plástica, agora mais multimedia; professora por um longo tempo, agora na Universidade Federal de Santa Maria; sou pesquisadora sobre relações entre arte, filosofia, tecnologia e educação, pensando sobre o mundo que vivemos e suas potencialidades. O porquê disso? Eu também sempre me pergunto porque fico procurando articular elementos de campos diferentes. Gosto de ficar articulando esses campos diferentes e deslocando coisas de seus lugares de origem, minha formação já foi por ai: graduação em Artes, mestrado em Psicologia Social e doutorado em Arte e Tecnologia. Penso que uma área do conhecimento não é suficiente para explicar-se, fico procurando respostas em outras áreas, sendo a filosofia um desses lugares privilegiados. Meu campo de ação é a Arte na qual não consigo conceber desvinculada da Tecnologia e da Filosofia; tentativas da poiésis de unir tekhné e episteme. Meu olhar sobre essas distintas áreas acabam se conjungando na vida cotidiana, cheia de perguntas “simples” como as suas. Essa dimensão tecno-ético-estética da vida é que me motiva, entender em que estamos nos tornando todos os dias (de um certo modo foucaultiano). Has estudiado arte, educación, psicología y filosofía, y has publicado trabajos sobre una diversidad de temas: arte, educación y nuevos medios; Escher; aprendizaje colaborativo; arte y matemáticas; propuestas pedagógicas e interactividad hipermedial; construcción colectiva de libros; cuerpo, arte y salud; entre otros ¿podrías hablarnos de las intersecciones, interacciones, complementariedad y/o divergencias que has ido buscando/encontrando/descubriendo a través de tu trabajo multidisciplinario? Você tem estudado arte, educação, psicologia e filosofia, e tem publicado trabalhos sobre uma diversidade de temas, como: arte, educação e novas mídias; Escher; aprendizagem colaborativa; arte e matemática; propostas pedagógicas e interatividade hipermídia; construção coletiva de livros; corpo, arte e saúde; entre outros. Poderías falar sobre as intersecções, inter-relações, complementariedade e/ou divergências que tem buscado/encontrado/descoberto através do teu trabalho multidisciplinar? Lendo sua pergunta percebo essa gama multidisciplinar, mas é interessante como na prática não percebo do mesmo modo, tenho a sensação de que estou sempre falando sobre as mesmas coisas de modos diferenciados. Na verdade ao ir trazendo essas distintas áreas para o diálogo, vou contaminando e indefinindo alguns limiares que antes eram específicos de cada uma. Ressalto que essas produções não são apenas resultados intelectuais individuais; ao contrário, elas resultam dos encontros com pessoas de outros campos do conhecimento, das conversas e pensamentos produzidos coletivamente. Adoro escrever com alguém, sempre é um desafio, as conversar que se tecem são descobertas para ambos os lados. Como minha area é a Arte, as inter-relações e intersecções que ocorrem partem da Arte, não sou filósofa, nem psicóloga, nem tecnóloga. Quando falo sobre corpo, interatividade, educação, mídias digitais, trago um viés do olhar de uma artista e de uma pesquisadora sobre processos de criação. Eu diria que meus afectos são produzidos pela arte.

Você tem estudado arte, educação, psicologia e filosofia, e tem publicado trabalhos sobre uma diversidade de temas, como: arte, educação e novas mídias; Escher; aprendizagem colaborativa; arte e matemática; propostas pedagógicas e interatividade hipermídia; construção coletiva de livros; corpo, arte e saúde; entre outros. Poderías falar sobre as intersecções, inter-relações, complementariedade e/ou divergências que tem buscado/encontrado/descoberto através do teu trabalho multidisciplinar?

Lendo sua pergunta percebo essa gama multidisciplinar, mas é interessante como na prática não percebo do mesmo modo, tenho a sensação de que estou sempre falando sobre as mesmas coisas de modos diferenciados. Na verdade ao ir trazendo essas distintas áreas para o diálogo, vou contaminando e indefinindo alguns limiares que antes eram específicos de cada uma. Ressalto que essas produções não são apenas resultados intelectuais individuais; ao contrário, elas resultam dos encontros com pessoas de outros campos do conhecimento, das conversas e pensamentos produzidos coletivamente. Adoro escrever com alguém, sempre é um desafio, as conversar que se tecem são descobertas para ambos os lados. Como minha area é a Arte, as inter-relações  e intersecções que ocorrem partem da Arte, não sou filósofa, nem psicóloga, nem tecnóloga. Quando falo sobre corpo, interatividade, educação, mídias digitais, trago um viés do olhar de uma artista e de uma pesquisadora sobre processos de criação. Eu diria que meus afectos são produzidos pela arte.

Poderias falar de uma de suas obras, explicando também porque a escolheu?

A obra que escolho é minha tese de doutorado que se constituiu na escrita da tese “Corpos associados:  interatividade e tecnicidade nas paisagens da arte” (http://hdl.handle.net/10183/27965) e na realização de duas obras: uma videoinstalação “Corpos Associados” e series de fotografias “Incorporações” (2010), que se dão a partir de um pensamento processual e sistêmico que não dissocia obra-humano-meio. Considero a escrita e as obras dois momentos diferenciados de criação. A escrita não é uma descrição das obras e seus procedimentos, nem as obras são il

ustrações dos conceitos escritos; ambas são realidades inventivas que resultam das operações tecno-estéticas que cruzam escrita e obras, problematizando o próprio processo do fazer. O que instigou tal pesquisa-criação foi a grande pergunta espinosiana o que pode um corpo? 

Resposta: nunca se sabe o que pode um corpo antes do encontro e, ainda, o que ele pode vai depender de sua capacidade de afectar e ser afectado. Andréia Machado OliveiraTal pergunta espinosiana atravessou a tese e foi problematizada em três campos distintos do conhecimento, simultaneamente: na Arte, na Filosofia e na Psicologia. Penso que os estudos multidisciplinares que eu vinha fazendo separadamente, se conjugaram nesse momento a fim de responder algumas inquietações e constatações sobre questões constitutivas da obra de arte, como: a obra pertence a um meio associado, a obra é um objeto tecno-estético produzido por certa tecnologia e aporta tecnicidades, e a obra somente pode ser entendida a partir do sistema obra-humano-meio.

 

Se pudesse levar na prática seu modelo ideal de educação universitária no campo da Arte, considerando também as tenologias de informação e comunicação e uma variedade de campos na ciência e na educação, como seria esse modelo de ensino-aprendizagem, quais objetivos gerais buscaria alcançar, que componentes fundamentais deveriam sustentar a estrutura desse programa de estudos?
Eu colocoria dois eixos centrais nesse programa de estudos: a tão falada interdisciplinaridade e os processos de pesquisa e criação. Concordo com Deleuze que diz que o ato de pensar não é algo natural e exige esforço, nesse sentido os processos de ensino-aprendizagem deveriam se direcionar para se desenvolver o ato de pensar de modo sistêmico, relacional e processual. Pensar implica em inventar problemas e suas possíveis soluções, requisito em qualquer processo de criação. Pensar interdisciplinariamente é pensar em rede, tecendo conexões; pensar implica em tecer relações entre um pensamento reflexivo e ações práticas, considerando a diversidade de elementos que se relacionam em um determinado sistema em relações espaço-temporais.
 
Não conheço nenhum modelo ideal, mas me agrada muito o funcionamento de alguns centros de Arte e Tecnologia que tenho visitando. São espaços de pesquisa e criação interdisciplinares que se desenvolvem em função de projetos, considerando não apenas a obra final, mas toda a processualidade do fazer, o aspecto temporal dentro da pesquisa. Outro aspecto é a não hierarquia de saberes, superando a tradição da super valorização do pensamento científico. Fez parte do meu doutorado em Montreal, frequentando alguns grupos do Hexagram/Concordia University. Considero que tal modelo canadense pode ser um referencial para os centros brasileiros em referência ao seu funcionamento institucional, descentramento e à sua linha investigativa baseada em processos de pesquisa criação.
 
A partir dessas contribuições, venho implementando alguns projetos na UFSM, como o LabInter (Laboratório Interdisciplinar Interativo), no Centro de Artes e Letras, que se destina para a construção de um espaço de pesquisa e produção de projetos interativos, interdisciplinares e colaborativos nas áreas de Arte Interativa; Design Interativo; Jogos Interativos; TIC e outros. Tal investigação objetiva a produção de um novo discurso eletrônico, outras maneiras de se lidar com a informação e a comunicação, novos deslocamentos e descentramentos perceptivos, outros modos de subjetivação em redes a partir de complexidades e multiplicidades. Nesse sentido, volta-se  à própria experiência de investigação no meio digital em rede e seus processos interativos. Entende-se que toda experiência se constitui por diversos graus de interatividade, fazendo-se necessário um questionamento sobre como estes processos ocorrem nas produções contemporâneas.
Há conceitos/temáticas ou ambitos de investigação/criação que você veja (ou queira ver) no futuro das media arts?

O artista sempre trabalha com as tenologias de sua época, sendo assim inevitável trabalhar com as TIC na contemporaneidade. Penso que a media art vem complexificando questões abordadas desde Du Champ, como autoria, relação artista e público, noções do corpo, questionamentos espaço-temporais; bem como tem levantado preocupações sobre a conservação e preservação no sentido de formação de uma historia das media arts, como Oliver Grau tem mencionado. Penso que um desafio é realizar questionamentos sobre a própria tecnologia digital, no sentido de quais poéticas tecnológicas promovem um diferencial inventivo e quais afirmam um deslumbramento dos efeitos tecnológicos, causando alienação. Assim, em última instância, cabe-se questionar o que está sendo atualizado no meio digital; que individuações estão sendo construídas nas relações máquina-humano-meio.

Pensando nas artes eletrônicas ou media arts, quem são os artistas, os filósofos, ou os cientistas que mais lhe interessam e por quê?
Há vários artistas que considero interessantes, mas ressalto alguns: Rembrandt e Cezanne me acompanham por longa data; artistas ligados à performance/happenings dos anos 60/70, como Vitor Acconci, Marina Abramovic, Dennis Oppenheim, Lygia Clark , Helio Oiticica, Bruce Neumann; as performances imersivas do austríaco Kurt Hentschläger, como a “FEED” (2005-06) onde obra e meio tornam-se um; Stelarc que trabalha radicalmente na incorporação da tecnologia no corpo humano trazendo questões sobre a extensão do corpo humano via sua artificialização; o artista brasileiro André Parente que em suas obras utiliza diversas imagens e sons simultaneamente, permitindo a coexistência de espaços e tempos diversos; a artista brasileira Regina Silveira; Bill Viola que expressa esta densidade de espaços acumulados pelo tempo; Eija-Liisa Ahtila que na videoinstalação “The House” (2002) fabula histórias contidas no imaginário de uma casa, como se pelas portas e janelas da casa flutuasse nosso próprio inconsciente, não se tendo limite entre o real e a ficção; o artista mexicano-canadense Rafael Lozano-Hemmer que fala em uma arquitetura relacional, buscando a expansão das potencialidades não institucionais; o grupo brasileiro SCIArts que tem focado sua produção em arte interativa; o grupo italiano Studio Azzuro que também tem focado sua produção em obras interativas em que o espectador é visto como um usuário que é responsável pela produção da experiência; entre outros.
 
Sobre os filósofos, tenho preferência por alguns em especial: Spinoza, Nietzsche, Bergson, Simondon, Deleuze. Agora estou estudando Vilém Flusser e pretendo ler mais livros da obra de Whitehead. Estes filósofos, de modo geral, têm como pontos em comum entender o pensamento como algo processual, relacional e sistêmico, bem como trazem o campo das Artes para um pensamento filosófico. A Ética de Spinoza une filosofia e vida ao apontar a potência de agir dos corpos, as relações de afectos que os corpos sofrem voluntária ou involuntariamente, o paralelismo entre corpo e alma e suas intensidades no viver. Nietzsche com seu martelo nos libera de qualquer moralismo e nos mostra de forma clara o poder da Arte de produção de realidades; Bergson com seu vitalismo traz a criação para a vida que está em constante transformação, sua duração; Simondon investiga uma filosofia técnica, na tentativa de questionar o humano, de modo extremamente processual e sistêmico com seu conceito-chave de individuação; Deleuze fundamenta sua teoria com todos esses filósofos citados, buscando um pensamento da diferença e do simulacro.
Em termos de projetos, processos e resultados, onde você gostaria de estar daqui a 10 anos?
Como muitas pessoas, tenho tido ciclos de realizações de 10 anos e me parece que agora começo outro. Nesse ciclo, profissionalmente, vejo minhas realizações e projetos muito vinculados à UFSM (http://www.ufsm.br/), pretendo aplicar tudo o que venho pesquisando no sentido de construir espaços de pesquisa e criação em Arte e Tecnologia nesta instituição, implementando parcerias intra e interinstitucionais, incluindo nacionais e internacionais. Pesquisas interdisciplinares, principalmente entre Arte, Tecnologia e Educação. Nesse sentido espero que o Labinter atue como uma rede nacional e internacional, com projetos que já vêm sendo propostos por alguns grupos, como: grupo SAT - Society for Arts and Technology – Montreal/Canadá (http://www.sat.qc.ca/page.php?lang=en&id=10), grupo de criação e pesquisa Sense Lab (http://senselab.ca/), os centros Hexagram Uquam (http://www.hexagram.uqam.ca/) e Hexagram Concórdia (http://hexagram.concordia.ca/); o grupo SCIarts de São Paulo (http://www.sciarts.org.br/); bem como o próprio CEIArte (http://www.ceiarteuntref.edu.ar/).
 
Entende-se que ações interdisciplinar sobre artemída na UFSM, apresenta-se de fundamental importância no sentido de incluir a região Sul do Brasil como mais um ponto de referência de pesquisa e produção que poderá contribuir para a abertura de uma discussão profícua, além de possibilitar o estabelecimento de vínculos institucionais para desenvolvimento de pesquisas em arte, ciência, humanidades e tecnologia e inovação no sul do País, em especial em Arte Interativa, Design Interativo, Jogos interativos e TIC.